O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita
O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite
O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo
Estava agora a pouco me lembrando de um trecho de Senhas de Baudrillard em que ele retoma uma história na qual , basicamente, um homem buscando fugir da morte vai justamente de encontro a ela. Antes soubéssemos do que temos medo de fato, e quando e do que fugimos! Deslocando a discussão feita no referido livro, faço menção ao trecho apenas para apresentar nossa miserável condição de ignorância.
Como diria o velho Freud: Não existe nada mais custoso que a doença, salvo a ignorância. E que terrível condição, não obstante humana, demasiadamente humana. Ora, se “cremos” no inconsciente, da maneira apresentada pela psicanálise ( processos mais numerosos e mais determinantes) a ignorância, enquanto desconhecimento consciente de nosso funcionamento, é algo inerente a nossa condição de vivos, e, portanto, desejantes e faltosos.
Schopenhauer já dizia que se queremos ser de fato livres, a única condição para tanto seria a morte. Vivos, somos escravos do desejo. Resta-nos portanto, algumas “escolhas” dentro de nossa constituição. Quanto a isso, nenhuma teoria que não se proponha a conceber o Homem como isolado de suas multideterminações (sociais, històricas, biológicas e, enfim, psíquicas, no ponto de vista apresentado, inconsciente, em sua maioria) teria alguma refutação contudente a apresentar. Insistimos em acreditar em escolhas embora um breve exercício racional nos leve ao oposto.
Se me decido por A, e não por B, não é por meu livre exercício de autonomia, como queriam muitos teóricos, e, a bem da verdade, também eu desejaria muito, mas porque séries de acontecimentos prévios e formas peculiares, inclusive fantasísticas, do afeto da realidade assim o determinaram.
Para que continuemos repetindo em nossas relações essas formas específicas de amar, odiar, agir é essencial não sabermos, ou não acreditarmos, que o fazemos. A melhor forma de perpetuação de algum mecanismo é que esse se torne tão sutil que não se “acredite” em sua existência. Não sabemos do que temos medo e sequer sabemos que fugimos de algo. Atentarmos para nossas impossibilidades entretanto é um bom começo para a tentativa de novos caminhos, até mesmo para o próprio conhecimento. Como diria o ditado: Aquele que sabe que está perdido já está menos perdido do que aquele que sequer desconfia.
